
Ao apresentar seu primeiro filme como diretor, ontem, na mostra Um Certo Olhar, do 61º Festival de Cannes, falando em francês, Matheus Nachtergaele disse que “A Festa da Menina Morta” pertence a “uma grande parte do cinema brasileiro, porém não muito conhecida, que se arrisca a falar desse país enorme, maravilhoso e terrível que é o nosso”.
A produtora Vania Catani (Bananeira Filmes), uma das 15 pessoas da equipe que acompanhava Nachtergaele no palco da sala Debussy, fez uma breve e emocionada declaração: “Há cinco anos, entrei pela primeira vez nesta sala. Desde então, sonhei sozinha que esse seria um bom lugar para começar a mostrar nosso filme”.
A pedido do diretor, toda a equipe se deu as mãos e ficou em silêncio durante um minuto, repetindo o gesto que antecedeu cada dia das filmagens.
No fim da projeção, que teve a presença do júri da mostra, os aplausos foram comedidos; alguns críticos franceses trocaram impressões favoráveis ao filme.
Comparado a Glauber Rocha por uma jornalista do festival, Nachtergaele disse: “Admiro muito o Glauber. Ele é um mestre para todos os que, de fato, amam o cinema. Mas será que fui tão louco para fazer um filme como os dele?”.
Santidade
Em “A Festa da Menina Morta”, a família de uma criança desaparecida no interior do Amazonas passa a viver
em torno de seu fantasma. O filme acompanha a preparação da festa dos 20 anos do desaparecimento da menina. Nesse tempo, os moradores da região passam a atribuir poder milagroso aos trapos do vestido que a garota usava e a acreditar na santidade de quem os encontrou -um irmão dela, vivido por Daniel Oliveira.
O comportamento religioso da comunidade e a dinâmica interna da família são observados pelo filme. Na casa de Santinho, é tacitamente proibido falar da mãe, que se matou.
O pai dedica-se à bebida e às mulheres, mas é também amante do próprio filho, que julga santo. O irmão descrê do milagre e do caráter religioso da festa -”Qual o milagre aqui? Isso é só um bando de homem bebendo cerveja”-, mas se sente compelido a participar.
A exploração econômica e política da fé religiosa é outro aspecto do filme, insinuado na festa, ápice do filme e da interpretação de Oliveira.
Incesto
Enquanto o público consome churrasco e música regional do lado de fora, dentro da casa de Santinho há um reencontro com sua mãe (Cássia Kiss) e as razões do ato desesperado.
Durante a sessão do filme, alguns espectadores abandonaram a sala, a partir do momento em que se concretiza a primeira cena de incesto, filmada na discrição de uma penumbra. Outros aplaudiram um monólogo do ator Paulo José, que interpreta um padre.
Fonte: Folha Online
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28 Maio, 2008 às 10:46 am
Não sei porque as pessoas sairam da sala. Será que elas jás passaram por isso ? Isso acontece todos os minutos nos lares brasileiros e pelo mundo afora. As pessoas precisam entender que devem combater o incesto. Quantas pessoas já passaram por isso e tem vergonha de falar. Esse filme serve para abrir um pouco os horizontes de pessoas que já sofreram com esse tipo de coisa. Que são muitas.
Ainda não vi o filme, mas vou assistir.