Ignorado por ser negro?

Na semana passada, a bilheteria americana apresentava um quadro em parte previsível: o delicioso desenho Horton e o Mundo dos Quem mantinha sua liderança, enquanto o astro Owen Wilson, recém-recuperado de uma tentativa de suicídio, ocupava o terceiro posto com a comédia Meu Nome É Taylor, Drillbit Taylor. A surpresa estava no segundo lugar: a comédia dramática Meet the Browns, que, sem muita divulgação, recolheu respeitabilíssimos 20 milhões de dólares em seu primeiro fim de semana. Meet the Browns é o quinto filme assinado pelo fenômeno Tyler Perry e, como os anteriores, vinha sendo ansiosamente aguardado pelos fãs desse ator/diretor/roteirista/produtor/dramaturgo. Se ainda não deu para entender, é porque Perry, que lota cinemas com seus filmes e arenas com suas peças, é um nome que dispensa apresentação para uma parte do público – mas, para outra, não significa nada. E está-se falando aí do público americano, não do brasileiro ou do, digamos, francês.

Os americanos que ignoram a existência de Perry são, em geral, brancos; os que o adoram são invariavelmente negros de classe média, que freqüentam o culto aos domingos, ligados em valores familiares. Estão fora do modelo branco de ascensão social e fora também da cultura hip hop. Como essas são as duas únicas categorias que Hollywood aprendeu a reconhecer, o segmento “família” da platéia negra vive à míngua no que toca ao entretenimento. Ou vivia, até o advento de Perry e de seu alter ego, a vovó linha-dura Madea, que ele interpreta com peruca, óculos imensos e muito enchimento por baixo do vestidão.

Não é espantoso que a popularidade de Perry seja tão segmentada, ou que a crítica costume ignorá-lo. Primeiro, porque o que ele quer é falar primordialmente a essa parte desprezada da platéia; segundo, porque seus filmes beiram mesmo o rudimentar. Diário de uma Louca, sobre uma mulher que pega o marido rico pulando a cerca – a criação com que Perry se lançou e a única que chegou ao circuito brasileiro –, combinava escracho, drama de novela, sermão moral e melaço em proporções que faziam os dentes ranger. O inesperado é que ele ainda enfrente a indiferença dos estúdios. Embora venha melhorando seus elencos, Perry não gasta mais que 5 ou 6 milhões em cada produção, tirados do seu bolso, e fatura no mínimo dez vezes mais. Nunca foi chamado sequer para uma conversa com um grande produtor. Naquelas que requisitou, deparou sempre com a mesma pergunta: “Então, quem é você e o que faz?”.

Aos 38 anos, solteiro e viciado em trabalho, Perry deixou para trás uma infância violenta e uma juventude como sem-teto para construir um pequeno império. Às vezes retorna às paisagens de seus piores dias, para não se esquecer de onde veio – e garantir que não vai deixar que nada breque sua trajetória fulminante. É amigo da apresentadora Oprah Winfrey, que teve uma trajetória muito semelhante à sua na vida, e ambiciona montar um canal de televisão, no qual sua legião de admiradores possa encontrar “reforço positivo” 24 horas por dia. Só falta uma coisa a Perry: que descubram que o fenômeno não é ele, mas o público que ele representa. E que, inexplicavelmente, continua fora do radar.

Na semana passada, a bilheteria americana apresentava um quadro em parte previsível: o delicioso desenho Horton e o Mundo dos Quem mantinha sua liderança, enquanto o astro Owen Wilson, recém-recuperado de uma tentativa de suicídio, ocupava o terceiro posto com a comédia Meu Nome É Taylor, Drillbit Taylor. A surpresa estava no segundo lugar: a comédia dramática Meet the Browns, que, sem muita divulgação, recolheu respeitabilíssimos 20 milhões de dólares em seu primeiro fim de semana. Meet the Browns é o quinto filme assinado pelo fenômeno Tyler Perry e, como os anteriores, vinha sendo ansiosamente aguardado pelos fãs desse ator/diretor/roteirista/produtor/dramaturgo. Se ainda não deu para entender, é porque Perry, que lota cinemas com seus filmes e arenas com suas peças, é um nome que dispensa apresentação para uma parte do público – mas, para outra, não significa nada. E está-se falando aí do público americano, não do brasileiro ou do, digamos, francês.

Os americanos que ignoram a existência de Perry são, em geral, brancos; os que o adoram são invariavelmente negros de classe média, que freqüentam o culto aos domingos, ligados em valores familiares. Estão fora do modelo branco de ascensão social e fora também da cultura hip hop. Como essas são as duas únicas categorias que Hollywood aprendeu a reconhecer, o segmento “família” da platéia negra vive à míngua no que toca ao entretenimento. Ou vivia, até o advento de Perry e de seu alter ego, a vovó linha-dura Madea, que ele interpreta com peruca, óculos imensos e muito enchimento por baixo do vestidão.

Não é espantoso que a popularidade de Perry seja tão segmentada, ou que a crítica costume ignorá-lo. Primeiro, porque o que ele quer é falar primordialmente a essa parte desprezada da platéia; segundo, porque seus filmes beiram mesmo o rudimentar. Diário de uma Louca, sobre uma mulher que pega o marido rico pulando a cerca – a criação com que Perry se lançou e a única que chegou ao circuito brasileiro –, combinava escracho, drama de novela, sermão moral e melaço em proporções que faziam os dentes ranger. O inesperado é que ele ainda enfrente a indiferença dos estúdios. Embora venha melhorando seus elencos, Perry não gasta mais que 5 ou 6 milhões em cada produção, tirados do seu bolso, e fatura no mínimo dez vezes mais. Nunca foi chamado sequer para uma conversa com um grande produtor. Naquelas que requisitou, deparou sempre com a mesma pergunta: “Então, quem é você e o que faz?”.

Aos 38 anos, solteiro e viciado em trabalho, Perry deixou para trás uma infância violenta e uma juventude como sem-teto para construir um pequeno império. Às vezes retorna às paisagens de seus piores dias, para não se esquecer de onde veio – e garantir que não vai deixar que nada breque sua trajetória fulminante. É amigo da apresentadora Oprah Winfrey, que teve uma trajetória muito semelhante à sua na vida, e ambiciona montar um canal de televisão, no qual sua legião de admiradores possa encontrar “reforço positivo” 24 horas por dia. Só falta uma coisa a Perry: que descubram que o fenômeno não é ele, mas o público que ele representa. E que, inexplicavelmente, continua fora do radar.


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