Jobim volta ao Morro da Providência e pede desculpas a moradores

Depois de deixar o Morro da Providência na tarde desta terça-feira (17), o ministro Nelson Jobim retornou à comunidade por volta das 18h para visitar a praça onde jovens foram abordados por um grupo de militares do Exército, antes de serem entregues a traficantes rivais de uma comunidade próxima.

Após cantar o hino nacional, os moradores exigiram a saída do Exército da favela. Jobim não garantiu a retirada das tropas, mas pediu desculpas aos moradores e prometeu rigor na apuração do fato. O ministro também voltou a afirmar que as obras não podem ser contaminadas pelo episódio.

“Infelizmente ele não deu a garantia de que o Exército sairá da comunidade”, disse o advogado João Tancredo, que representa as famílias das vítimas.

Desculpas, não vai se repetir, diz ministro
Jobim chegou a deixar a comunidade, por volta das 17h20, sob protestos de João Tancredo e outros moradores, que reclamaram que as mães das vítimas o aguardavam na Praça Américo Brum, no alto do morro. Segundo o advogado, o ministro retornou à comunidade por volta das 18h, onde ficou por 20 minutos, após saber que era aguardado por cerca de 500 pessoas. Segundo Tancredo, Jobim pediu desculpas públicas pela “barbárie” e prometeu punição rigorosa aos envolvidos. Mais cedo, o ministro já havia informado a jornalistas que se desculpara com moradores e familiares das vítimas.

“Estamos confirmando a desculpa que nós precisamos, manifestando o nosso pesar pelo acontecimento e mostrando claramente que isso não vai se repetir”, disse o ministro.

A visita de Jobim à favela ocorre num momento em que as relações entre os moradores e o Exército estão em crise por causa da morte dos jovens David Wilson da Silva, de 24 anos, Marcos Paulo Campos, de 17 anos, e Wellington Gonzaga da Costa, de 19. Após serem abordados por um grupo de 11 militares, eles teriam sido entregues a traficantes de uma facção rival à que controla a favela. Os corpos dos rapazes foram encontrados no domingo (15) em um lixão em Caxias, na Baixada Fluminense.

Crianças gritavam: “Assassinos!”
O ministro chegou pela primeira vez à favela por volta das 16h desta terça-feira (17) e vistoriou por cerca de meia hora as obras na comunidade, sempre escoltado pelos militares e acompanhado da presidente da Associação de Moradores, Vera Melo. De uma das lajes, crianças gritavam: “Assassinos! Assassinos!”, deixando claro o clima de animosidade entre as tropas e os moradores da comunidade.

A dona-de-casa Sueli Ribeiro, de 58 anos, tia de David, chamou o ministro para um café quando ele passava em frente à sua casa.

“Ele falou que eles iam resolver. Tomou café amargo, em copo de geléia, de pobre mesmo. Cobrei uma providência e ele disse que podia deixar, que não ia ficar impune”, contou Sueli.

Em entrevistas a jornalistas, após uma reunião na Associação de Moradores, o ministro não deixou claro, no entanto, se vai retirar as tropas da comunidade. Ele garantiu apenas que as obras continuam.

“O que nós não podemos permitir é que esse fato contamine a obra que está sendo feita, que tem relevância. Hoje você tem inclusive empregos que estão sendo gerados aqui. E esse é o sentido da conversa que tivemos com a comunidade. Eu afirmei também a um parente de uma vítima e outra que esteve aqui que a Justiça será feita e que eu estarei atento nisso”, afirmou Jobim, que disse ter pedido desculpas aos moradores e manifestado o pesar pelo que aconteceu. “O Exército está realizando obras em todo o país. Faz parte de um conjunto de ações sociais.”

Exército divulga nota oficial
Em nota oficial, o Exército informou que a operação no Morro da Providência não tem como objetivo segurança pública e, por isso, não necessitaria de determinação da presidência ou do Congresso Nacional:

“É importante destacar que a participação do Exército no empreendimento no Morro da Providência não é uma operação em prol da segurança pública, a qual necessita de determinação da Presidência da República e de aprovação no Congresso Nacional. O Exército, naquela comunidade, participa de uma ação subsidiária. As ações subsidiárias estão entre as missões constitucionais atribuídas ao Exército Brasileiro, definindo sua cooperação com a nação”.

A nota diz ainda que a ação é fruto de um acordo entre o Ministério das Cidades e o Ministério da Defesa e tem por objetivo a revitalização de moradias populares e que repudia qualquer desvio de conduta de seus integrantes.

“O Exército reafirma que repudia, veementemente, qualquer desvio de conduta e qualquer ação fora da legalidade praticada por seus integrantes, inclusive no desenvolvimento de operações de segurança na área abrangida pelo acordo em questão”, diz a nota.

Antes de ir à favela, o ministro Jobim foi ao Comando Militar do Leste, onde se reuniu com o o comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, e com o chefe do estado-maior, general Mário Matheus de Paula Madureira.

Segundo a assessoria de imprensa do Ministério da Defesa, o comandante da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, general Mauro César Cide, está negociando com a comunidade a permanência ou não do Exército no Morro da Providência. A intenção do governo, segundo a assessoria, é de que as obras continuem.

Ficar ou sair
Na parte da manhã, o comandante da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, general Mauro César Cide, informou que a decisão de permanecer ou não morro deverá ser tomada pelo Ministério da Defesa ainda nesta terça. Ele disse que a prioridade, no momento, é terminar 20 casas que estão destelhadas, mas depende de uma decisão a ser tomada em Brasília ou, no Rio, pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim.

Os operários que trabalham no morro já manifestaram a intenção de concluir as obras desde que os militares se retirem do Morro da Providência.

Os parentes das vítimas estavam acompanhadas de advogados que se mostraram dispostos a iniciar ações de pedido de indenização à União.

Fora do morro
A Defensoria Pública da União anunciou que vai pedir à Justiça Federal para que seja determinada a retirada do Exército do Morro da Providência. Para o defensor público André Ordacgy, a Constituição não prevê que o Exército faça o trabalho de segurança pública, que deve ser feita pelas polícias Civil, Militar, Federal, Rodoviária Federal e Ferroviária.

O Ministério Público Militar informa que dois membros da Procuradoria da Justiça Militar no Rio de Janeiro foram designados pela procuradora-geral da Justiça Militar, Cláudia Márcia Ramalho Moreira Luz, para acompanhar o inquérito. O procurador da Justiça Militar Antônio Antero dos Santos e a promotora da Justiça Militar Hevelize Jourdan Covas Valle, membro do Grupo de Direitos Humanos do Conselho Nacional de Procuradores-Gerais, verificarão o suposto envolvimento dos militares nas mortes dos três jovens.

Comissão
Acompanhando o ministro, o deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE), presidente da Comissão de Segurança da Câmara, afirmou que vai ser criada um comitê externo para acompanhar o caso da morte de três jovens.

Segundo Jungmann, a comissão, que vai ser formado por deputados federais da bancada fluminense, terá 15 dias para apresentar um relatório na Câmara dos Deputados em uma audiência pública.

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