Os Trapalhões estão de volta!

Nunca briguei com Dedé’, diz Didi nos 30 anos de “Os Trapalhões”Humorista revela curiosidades sobre a história da trupe.
Programa começou a ser exibido aos domingos em 13 de março de 1977

Os humoristas Renato Aragão e Dedé Santana, o Didi e o Dedé, brincam durante coletiva no Projac, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde anunciaram nova parceria. Dedé e Didi durante 30 anos integraram, ao lado de Mussum e Zacarias, o grupo “Os Trapalhões”. Dedé vai participar do elenco de “A Turma do Didi”, exibido aos domingos na Rede Globo. (Foto: MARCOS D’PAULA/AGÊNCIA ESTADO/AE)

Foi em um domingo, dia 13 de março de 1977, que o programa “Os Trapalhões” estreou na TV Globo. A formação com Renato Aragão, Manfried Santana, Antônio Carlos Bernardes e Mauro Gonçalves já fazia sucesso havia dois anos na TV Tupi quando foi contratada para ocupar a final da tarde de domingo, antes do “Fantástico”. A partir de então, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias bateriam recordes de audiência na TV e de bilheteria no cinema. Cinco de seus filmes estão entre os dez mais vistos da história do cinema nacional.

Criador do grupo – que nasceu na década de 60 sob o nome de “Adoráveis Trapalhões” e tinha entre os integrantes o ator Ivon Cury, o cantor Wanderley Cardoso e o astro da luta-livre Ted Boy Marino –, ele conta a trajetória de “Os Trapalhões”, que começou a decair com a morte de Mauro Gonçalves, o Zacarias, e não agüentou o baque da morte de outro integrante, o carismático Antônio Carlos Bernardes, o Mussum. Emocionado ao falar dos companheiros, o cearense de Sobral, de 71 anos, falou sobre os momentos alegres e dramáticos do grupo humorístico mais popular do país em todos os tempos.

Como nasceu o programa?
Renato Aragão –
Eu fazia o programa “Os insociáveis”, com o Dedé e o Mussum. Durou dois anos, depois fomos para a TV Tupi. Daí precisamos de mais um companheiro para o programa, de duas horas, aos sábados. Chamei o Mauro Gonçalves (Zacarias), e formamos o quarteto. Era difícil abastecer aquele horário todo. Então passaram o programa para o domingo. Pensei: “É o meu fim”. A gente ia competir com o “Fantástico”, da Globo. Ganhamos do “Fantástico”.

E como você foi para a Globo?
Renato –
Duas coisas me convenceram a vir para a Globo. Eu morava no Rio e trabalhava em São Paulo. E a Tupi, apesar do sucesso do programa, não me pagava havia um ano. Quando completou um ano certinho, eu fiz um bolo e levei para o diretor-geral. Mesmo assim, quando me transferi para Globo, a Tupi entrou com um processo, por isso só pude estrear em 1977, primeiro com especiais, em janeiro, e depois com o programa dominical, em março.

Como você criou seu vocabulário peculiar com expressões como “audácia da pilombeta”, “camufla”, “arô”, “cuma”?
Renato –
“Cuma”, por exemplo, vem do jeito que o nordestino sintetiza as coisas. “Como é que é” vira “cuma”. A gente também chamava mulher de “bicho bom”, o que hoje talvez fosse considerado uma ofensa.

O humor ficou politicamente correto. Hoje em dia não tem mais como fazer as piadas daquele tempo. Como você vê essa mudança?
Renato –
Eu estou pouco ligando se me chamarem de Paraíba. Não era ofensa, era esculhambação. Nunca ninguém reclamou. Era uma brincadeira e o Brasil assistia.

Você chegou a sofrer censura do governo militar?
Renato –
Sofri censura antes dos Trapalhões. A gente tinha que fazer um ensaio normal e outro para a censura. A gente mandava o script antes, mas eles vinham ver ao vivo. Era grande o constrangimento, principalmente quando eles proibiam.

Para você, qual foi o motivo de “Os Trapalhões” fazer tanto sucesso?
Renato –
Tínhamos bons redatores, mas vivíamos do clima. Tinha muito caco (improvisação). Enquanto os outros programas vinham do rádio, nós já tínhamos a linguagem da TV.

Como você criou o nome completo do Didi?
Renato –
Criei na hora. Quando cheguei no Rio, tinha um quadro no programa “A, E, I, O, Urca”. Uma vez perguntaram meu nome, e eu falei “Didi”. Daí o ator que contracenava comigo foi botar um caco (um improviso) e perguntou “Didi do quê?”. Aí me lembrei do Nordeste, quando eu era criança, e falei : “Didi Mocó Sonrisélpio Colesterol Novalgino Mufumbo”. Rapaz, o auditório só faltou morrer de rir. Mocó é um preá, um rato do mato, sonrisélpio por causa do Sonrisal – não podia falar o nome do produto – colesterol, novalgino e mufumbo, que é um arbusto que também tem lá no Nordeste.

Como você descobriu o Mussum?
Renato –
Os Originais do Samba, grupo que o Mussum fazia parte, tocando reco-reco, foram um dia participar de um programa do Chico Anysio. No quadro, eles estavam na cadeia. Daí passava uma mulata, e o Mussum fazia “uuuuhhhh”, como um cachorro uivando. Daí eu falei pro Dedé: “Vai lá, corre atrás, ele se chama Mussum.” O Dedé que foi lá, falou com o empresário dele. Falei que ele não precisava sair do grupo, se ele desse conta fazia os dois. Como ele era engraçado, era só passar os textos para ele pegar o jeito no nosso programa. Ele ficou feliz da vida. Daí eu fui aumentando a participação dele. Eu arrisquei e deu certo. Eu gosto de arriscar.

Mantém algum contato com o Dedé?
Renato –
Fizeram uma projeção em cima disso, para criar uma animosidade. Ele até deixou o grupo um tempo para ser pastor evangélico. Deixou um pouco a carreira e depois voltou. E ele está lá fazendo um programa… A gente sempre se liga, sempre se encontra. Eu não entendo. Criaram uma briga que nunca aconteceu. A briga do Dedé foi com a TV Globo, não foi comigo. Nem gosto de falar muito desse assunto, porque não é verdade. Eu sempre me dei bem com ele. A gente tem que passar por cada coisa…

E os coadjuvantes dos “Trapalhões”, que eram quase integrantes, como o Roberto Guilherme (Sargento Pincel) e o Tião Macalé? Como você os chamou?
Renato –
O Roberto Guilherme entrou para o grupo quando eu fui para a TV Excelsior. E ele fazia um capitão, não fazia um sargento. Mas, do jeito que ele falava, como capitão, ele era do Exército mesmo. E a gente tirava proveito disso para fazer graça.

E o Tião Macalé?
Renato –
Muitos quadros não tinham desfecho. O quadro era bom, mas a gente não sabia como terminar. A gente pegava o Tião e ele dizia: “Tchan!”, como se dissesse que tinha acabado o programa. “Não tem texto? Chama o Tião”. Mas não podia colocar frases grandes, que ele não decorava. Ele tinha uma personalidade muito forte. Só fazia o que ele queria.

Como surgiu o bordão “Ih, nojento”?
Renato –
[Houve um quadro em que] A gente tinha que jogar um baú com ele dentro. Claro, a gente ia fingir que jogava com ele, e depois só jogaria o baú, sem ele. Mas a gente jogou com ele dentro. Ele abriu o baú e falou, bravo, “nojento”. Rapaz… Isso foi o início de tudo. Quando ele xingou “nojento”, foi pro ar como o desfecho do quadro. Daí eu falei pra ele, “agora você vai ter que fazer isso”. Ele era engraçadíssimo. Um dia eu chamei ele para conversar e disse: “Tião, vamos fazer um tratamento para os seus dentes”. Aí ele ficou olhando para a minha cara. Eu falei, “eu te consigo um dentista aqui para arrumar esse teu sorriso faltoso – era o apelido que eu tinha arranjado para ele”. Ele olhou para mim e começou a sorrir. “Renato, você quer acabar com a minha carreira? Se eu botar esses dentes eu perco o emprego.” Ele não era bobo, não.

E as brincadeiras que você fazia no programa?
Renato –
O programa era nosso jardim de infância. Por causa das brincadeiras com o cenário, recebi memorandos. Mas daí o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, diretor da Globo na época) chegou e falou que a gente podia tudo. E o povo adorava. Mas isso não pode ser produzido, tem que ser feito na hora.

Os pais levam as crianças aos cinemas. Na hora de fazer os filmes, vocês também pensavam em colocar elementos que agradassem os pais?
Renato –
Não. Sabe por quê? Porque daí o filme ficaria indeciso. Fui muito criticado por isso. Falavam que não tinha pé nem cabeça, que era subproduto, mas as crianças adoravam. Eu cheguei até a fazer um filme para ganhar a crítica. “O auto da Compadecida” foi muito bem aceito pela crítica, mas a criança ficou assim, meio decepcionada, por que não era para ela. O adulto adorou, mas aí eu perdi um pouco o público infantil. Sempre digo isso para os críticos. Faço filmes para crianças. Para criticar meus filmes vocês têm que assistir de calça-curta.

Você vê seus filmes?
Renato –
Não. Na hora da estréia é tanta confusão que eu nem chego a ver. Eu vejo de longe, sem sonorização. Não tenho essa de sentar para ver meu filme, passou, para mim, está feito. Eu só quero saber se agradou depois.

Como está sua rotina hoje em dia?
Renato –
Eu não tenho férias. O programa não sai do ar de janeiro a março, como os outros. E agora eu voltei a fazer cinema e me empolguei de novo.

Quanto tempo você leva para fazer um filme?
Renato –
Se você for colocar desde o início do roteiro, de quatro a seis meses.

Já tem algum projeto engatilhado?
Renato –
Tenho um com minha filha de volta. Os produtores gostaram do desempenho da minha filha. Ela é muito pequena, mas conquistou o público infantil feminino. Acho muito cedo para ela, mas vou fazer esse próximo filme.

Quanto você teve de público em seu último filme?
Renato –
Quase um milhão. Mas perdi muito público por causa da televisão e do preço do ingresso do cinema. Eu tinha um público de quatro milhões, cinco milhões, em média. Os cinemas da periferia, onde eu tinha a maior parte do meu público, acabaram. O ingresso naquela época custava US$ 1, eram R$ 4… R$ 2. Hoje, a média é R$ 10. E o povão está sem dinheiro, e ainda tem que sair lá do subúrbio para os grandes centros, nos cinemas do shopping. E antigamente eles iam uma, duas, três vezes. Hoje em dia seria muito difícil atingir novamente quatro milhões.

Quando “Os Trapalhões” terminou para você?
Renato –
Quando morreu o Zacarias eu senti que a coisa tinha acabado. Para mim tinha acabado. A Globo queria continuar. Eu não. Tinha perdido o sentido da coisa. “Os Trapalhões” foram até ali, até a morte do Zacarias. Eu já não levava aquilo como antigamente. Aí, quando o Mussum faleceu, logo a seguir, foi um negócio tão violento que a gente sofreu… caiu meu chão (pausa). Até parei de trabalhar na televisão. Fiquei seis anos fora. Fiquei fazendo aqueles especiais. Mas para mim tinha acabado tudo, cinema, televisão, tudo. (pausa) Fiquei seis anos totalmente sem rumo.

Como você se recuperou?
Renato –
Depois de muito tempo, eu pensei: “Não posso ficar viúvo o tempo todo. Vou voltar. Senão vou sucumbir.” Pensei em fazer cinema primeiro. Fiz “O noviço rebelde”. O cinema brasileiro estava acabado também. Voltei com o “Noviço” e foi uma explosão. Fiz “Simão, o fantasma trapalhão”, que teve mais público que o “Noviço”. Daí a Globo pediu para fazer um programa que não lembrasse em nada “Os Trapalhões”. E está dando uma boa audiência, mesmo em um horário ingrato. Mas não é isso que eu quero fazer em televisão.

E o que você quer fazer agora?
Renato –
Eu quero fazer seriados.

Como os especiais dos Trapalhões?
Renato –
Mais complexos, porque aqueles eram avacalhação. Quero fazer seriados que tenham sentimentos, seriam os meu filmes esticados. Mas isso é para o futuro, daqui a um ano. Seria em outro horário, mais à noite.

Como você avalia esses 30 anos de Globo?
Renato –
Tenho dois caminhos. O caminho da televisão e o caminho do cinema. Acho que os dois atingiram a fase ascendente juntos. Até que o destino acabou com o programa. (Pausa) Hoje em dia ninguém mais formaria um grupo daquele.

Fonte : G1

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