Cultura Brasileira tratata como 1º mundo Inaugurado o Muhpan – Museu de História do Pantanal

Dia 12/08/2008 foi ingaugurado o Muhpan – Museu de História do Pantanal.

Gostaríamos de parabenizar o Sr. Nivaldo Vitorino por mais esta conquista.

Este museu só pode ser realizado graças aos patrocinios da Petrobrás e Votorantim e dos apoios do IPHAN e Moinho Cultural de Corumbá. O gerenciamento do museu é da Fundação Barbosa Rodrigues.

Confira a entrevista com Nivaldo Vitorino, Arquiteto é o autor do projeto museográfico e diretor do Estúdio de Arte Votupoca, empresa responsável pela produção e montagem do museu.

– Qual é a importância para o Pantanal de se ter um museu específico do lugar?
Embora o Pantanal seja um dos lugares mais bonitos do planeta, sua história era desconhecida para a maioria dos brasileiros e do mundo.
O MUHPAN ( Museu de História do Pantanal) conta a história da presença humana na região desde 8.000 anos antes do presente até os dias de hoje. Histórias fabulosas narradas pelos conquistadores espanhóis, as missões jesuítas destruídas pelos bandeirantes e o ciclo das monções em busca do ouro em Cuiabá , o apogeu da navegação fluvial, o trem do Pantanal, são fatos eletrizantes que merecem ser contados.
A maldita guerra com o Paraguai chegou ao Pantanal e deixou influencias culturais percebidas até hoje, e há muitos equívocos que são esclarecidos neste capítulo pela historiografia contemporânea.
Há ainda o polêmico marechal da paz, Candido Maria Rondon e a epopéia da construção do telégrafo, garantindo as atuais fronteiras do Brasil com nossos países vizinhos.
Um delicioso encontro com nossa identidade alem do bem e do mal, que encanta quem visita o museu.

Como foi pensada a divisão do museu (suas exposições, partes, momentos históricos) e a área interativa?
Antes de mergulhar na história da região, o público conhece a geografia pantaneira, que influenciou os processos históricos com suas características peculiares.
Em seguida uma bela exposição de artefatos arqueológicos , e a chegada dos europeus. A narrativa é cronológica, contada com textos, cartografias, instalações multi-mídias e acervo conseguido junto ao IPHAN e a comunidade. O roteiro expositivo envolve o público fazendo-o exercitar a imaginação em uma interatividade abstrata, que ocorre entre os planos do olhar e do objeto.

Como foi pensado o projeto museográfico?
Tive o cuidado de evitar a presença do mito do herói, e acentuar a importância dos processos históricos para que o próprio público desenvolver seu senso crítico.
Minha primeira imersão ao Pantanal foi impactante, fiquei encantado com a paisagem e as histórias que o povo conta com sua tradição oral, que muitas vezes a fábula furta ao mundo real.
O projeto museográfico induz a força do imaginário do espectador, para tanto usei a arte e a poesia, como elo condutor da narrativa. Assim sem clichês e patriotadas oficialescas, a história ficou mais rica e interessante.

Como foi a constituição do acervo do museu?
Não havia acervo coletado, e aceitei o desafio de reunir a história em um único edifício. Percebi que a história da região era como um grande quebra cabeças com peças espalhadas pelo estado, pelos museus e bibliotecas do Rio de Janeiro e pelo Brasil, e um acervo riquíssimo nas prateleiras das universidades, e em museus europeus e americanos.
Lá estava o caminho, e ao penetrá-lo recebi sinais da alma regional, aparecendo como cachos, na longa marcha para reunir um acervo material e imaterial.
A travessia começou em abril de 2006, e no caminho encontrei pessoas muito interessantes.
Convivi e entrevistei arqueólogos, pescadores, paleontólogos, vaqueiros, geógrafos, cabo, sargento, general , museologos,vaqueiros, arquitetos, defensores do patrimônio histórico, paraguaios, fazendeiros pantaneiros, escultores, cineasta bororo, estudante terena, cacique guató, Dr Cleto de Barros, barqueiros, amigos do Rio e Janeiro e São Paulo, antropólogos, cineastas, fotógrafos, secretários de cultura, diretores de museus do Rio de Janeiro, cenotécnicos caprichosos, artistas de teatro, poetas e escritores, bibliotecários, os guerreiros de Shambala do IPHAM, EMPRAPA , Moinho Cultural e o nobre cavalheiro Kadiveo de coração, Alain Moreau que nos incentivou com seu entusiasmo.
Viajei constantemente ao pantanal em virtude desta tarefa. Meus olhos viram paisagens impossíveis de narrar de tal grau de beleza.
A paisagem se transforma em todas as estações. Presenciei o amanhecer do dia em lagoas e campos. Surgiram os primeiros pássaros , os sons dos animais passando distraídos ao meu lado. Em silencio, invisível a testemunhar a Gênese que ocorre a cada manhã no Pantanal.
É a vida renascendo todos os dias. Lá, é assim.
De suas vastas planícies alagadas ouvi ecos de civilizações extintas, cheiro de culturas frescas..
Nuvens absolutas e árvores soberbas.
Ouvi revelações surpreendentes do historiador Gilson Martins, com uma visão mais filosófica de ver a historia. Material explosivo.
Histórias de acordar “agoras”.

Conte um momento marcante.
Foram tantos, mas há dois especialmente reveladores.

Momento 1 – Encontro com Everton..
O início da busca do acervo perdido foi difícil. Sabia de muitas famílias que possuíam algum acervo em suas casas e fazendas; objetos, fotos, cacos, fragmentos, paladares e cheiros, qualquer sinal para ilustrar a história, que é deles, me interessava.
A desconfiança natural para com quem é de fora, logo se manifestou, mas depois de muitas viagens e o convívio e envolvimento com diversos atores sociais, aos poucos ganhamos a confiança deles, pois eu mostrava de forma eloqüente o projeto e os benefícios que tal obra traria
Pedia para que aceitassem doar ou emprestar objetos de valor histórico, para compartilhar este bem com as crianças, estudantes e turistas a revelar a nossa identidade.
Assim, acompanhado da produtora e fotógrafa Gabriela Ferrite, conheci Everton na Pousada Cabana em Bonito, onde trabalha. Ficamos sabendo que ele tinha uma espada antiga, mostrei o projeto a ele.
Ele nos levou a sua casa, e mostrou seu precioso patrimônio, deixado pelo seu bisavô que lutou na guerra com o Paraguai em 1867, uma espada original, lá estava o primeiro acervo, comemorei.
Ele relutou, contou a historia da espada, herdada pelos seus antepassados, mas pouco sabia sobre a guerra e seu significado. Disse ainda, apontando sua casa, que era a única coisa que deixaram para ele. Percebi a sua angústia com meu pedido e me senti mal.
Ele olhava seguidamente para a espada e para sua casa, com ar de dúvida, então seguido de um longo silencio disse: pode levar.

Este ato me comoveu, o tamanho da atitude do Everton revelou mais do que eu procurava, foi muito mais que um objeto, eu vi um gesto de humanidade e responsabilidade que deve ser exemplo para muitos.
Constrangido, decidi não levar a espada, se precisar voltarei, disse a ele ao me despedir.
Lembro-me bem dele, enquanto o carro se afastou da janela eu vi seu ar de confuso, mas aliviado.

Meses mais tarde conquistamos espadas doadas por famílias de fazendeiros, e do Museu Histórico Nacional do RJ.
A espada do Everton ficou para seus descendentes, mas sua alma está lá no museu.

Momento 2 – Encontro com a nossa identidade.
Quando o museu estava em fase de teste, recebi a visita de alunos do Moinho Cultural de Corumbá, uma ONG que ensina a crianças carentes, ballet e musica erudita.
Na recepção eu os recebi, dando boas vindas. Era a primeira vez que elas entravam em um museu, estavam acanhados, para quebrar o gelo puxei assunto com duas meninas muito tímidas, sobre sua etnia indígena.
Elas, olhando para o chão responderam que não eram índias, ficaram muito envergonhadas.
Engoli minha revolta em silencio e iniciei o passeio pelo museu com elas.

A medida que elas penetravam pelas instalações um ar de descoberta e encantamento substituiu a timidez.
Elas estavam descobrindo do que foram forjadas em séculos de transformações culturais.

Na última sala, a menina Kaísa e sua inseparável amiga, pararam diante de um móvel expositor sobre o aventureiro e fotógrafo italiano Guido Boggiani, que conviveu com os índios Kadiweu em 1896 a 1901, onde estão expostos fotografias e desenhos etnográficos.

Kaísa se ateve diante de uma página do diário do Boggiani, com registros de partituras de música dos Kadiweu, então com seus delicados dedos tocou no móvel, como se esse fosse um piano e mirou orgulhosa na reprodução do desenho de uma índia. A menina que entrara no museu com vergonha de sua etinia agora estava feliz e orgulhosa.

Seis meses depois, no dia da inauguração do museu, notei a ausência da menina e perguntei a Márcia Rolon, diretora do Moinho Cultural por onde ela estava.
Disse-me que Kaíssa estava no Rio de Janeiro, pois ganhou uma bolsa da Orquestra Sinfônica Brasileira, para se aperfeiçoar. Hoje Kaíssa é a violinista spala da orquestra do Moinho.

Esta história me trouxe uma noção de pertencimento, somos parte da mesma história.
Passamos séculos olhando para o mar, esperando notícias vindas da metrópole e demos as costas para o oeste. É assim até hoje, mas felizmente há uma revolução silenciosa ocorrendo pelos rincões do Brasil.
“Do que lembro, tenho.” Esta frase do Guimarães Rosa norteou o trabalho e está estampada na parede de entrada.
O museu cumpre este papel, lembrar do que somos, e como fomos feitos, só assim veremos o futuro, do contrário seremos um país sem memória, frágil e desinteressante, pronto para ser invadido.

Informacoes e fotos no blog

http://muhpan.wordpress.com/

 

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2 Responses to Cultura Brasileira tratata como 1º mundo Inaugurado o Muhpan – Museu de História do Pantanal

  1. jose antonio marques da silva disse:

    Parabéns! Estive no Pantanal por dois dias apenas, gostei muito. Creio que a história e a cultura de um povo é o seu alicerce. Também não podemos deixar de considerar que o bioma pantanal, assim como o amazônico não é apenas brasileiro. E assim devemos continuar a incentivar a integração da América Latina, ou pelo menos da América do Sul, para como um só povo, cultural e socialmente coeso, fazermos a diferença no mundo. Problemas como o boliviano passarão, vamos olhar vinte anos para frente.
    Parabéns a todos que lutaram pela cultura e história pantaneira.

  2. Raimundo Gomes de Oliveira disse:

    E apenas uma pergunta : O que e ingaugurado? A principio eu pensei que fosse erro de digitacao, mas com arepeticao; … Estou em duvida.

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